Quadragésimo nono andar, por favor

Primeiramente, devemos reconhecer que o elevador é uma etapa, nunca um destino. Ninguém vai até o elevador se não for para apenas passar por ele. Sobe e desce, mas nunca fica. Essa é uma das tristes características humanas: o desapego.

Você torce pra que o elevador chegue vazio, ainda que goste muito dos seus vizinhos. Mania de introspecção – outra característica humana. Evitamos ser simpáticos como se não pudesse ser natural. Mas ele chega cheio, quase sempre. “Hoje amanheceu frio, né? Até que ontem tinha dado uma aliviada”. Em anos de copa, o diálogo corre o risco de extrapolar os fatores climáticos.

Pensamos, na nossa pequenez, que pessoas chegam ao elevador. São bem mais que pessoas. Chegam histórias recheadas de cor e sabor. Talvez aquela mãe com a maçã na mão tenha passado uma noite maravilhosa, e a fruta foi tudo o que deu tempo de comer, às pressas, para celebrar. E talvez aquela criancinha escandalosa tenha sofrido o trauma da perda dos pais. A loira antipática pode não ter conseguido o emprego, ou talvez apenas a tinta do cabelo tenha ficado mais escura que o esperado.

Tudo isso a gente não pensa, nos segundos que passamos dentro do elevador. Preferimos mirar o espelho, de canto de olho, do que prestar atenção nas aventuras que transbordam em cada um dos passageiros. Tudo o que queremos é chegar, porque não soubemos o quanto seria bom ficar.

Há outra coisa interessante sobre o meu objeto de inspiração. Ele atua com velocidade psicológica. Elevadores de prédios comerciais e de shoppings parecem não chegar nunca, e quando chegam, se arrastam preguiçosos para distribuir as pessoas. Mas elevadores de aeroporto, meu Deus! Com que rapidez mortificante eles se deslocam! Elevadores de despedida desconhecem a saudade. Na verdade, não é culpa deles. É outra característica (apenas) humana.

Acho engraçado é o quanto nos intimidamos quando entra alguém no elevador no momento em que estamos conversando. Geralmente é um completo estranho, pra quem você não deve nenhuma satisfação, mas ainda assim a reação imediata é a de querer parar de falar. No mínimo, diminui-se o tom de voz.

Sem falar nos cheiros. Tudo é muito mais intenso dentro do elevador, apesar da brevidade. O contato com o outro é inevitável, quase que invasivo. Até o ato de pensar parece constranger. Os olhares, os ruídos, a posição das mãos. Tudo é extremamente sucetível. E essa vulnerabilidade, esse “não ter para onde fugir” em que nos colocamos, incomoda.

Hoje os problemas diminuíram. Os passageiros têm pressa, e nem se dão ao trabalho de olhar ao redor. Embarcam absortos em seus pensamentos e preocupações, e desembarcam como se nem tivessem entrado. Quando muito, reparam se o cabelo está assentado e, a roupa, alinhada. Esbarram em histórias de vida, mas não enxergam nada além de si.

Outra adaptação humana para o problema do elevador foi a aquisição de televisores. Para todos aqueles que se sentem perdendo tempo com o deslocamento, ou que simplesmente querem ter para onde olhar, agora ficou resolvido: consomem publicidade gratuita.

Todos os dias passamos por muitos elevadores diferentes. São segundos que, se somados, representariam um bom pedaço de vida. Pense nisso, antes de esperar por elevadores vazios.

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